Refresco a alguns espanhólatras

Deparamo-nos no Facebook com a seguinte foto, anexa de comentário, de autoria da comunidade “Somos hijos de España – Hispanofilia”:

“PARAGUAY; LO QUE PUDO SER

Año 1850, todas las repúblicas hispánicas del continente sudamericano, más la monarquía del Brasil, están fuertemente endeudadas con la banca inglesa. ¿Todas? No, el Paraguay se mantenía alejado del endeudamiento, dicho de otro modo, no era una república más pisoteada económicamente -por lo que se convertía su progreso en un camino largo y tortuoso- pero al mismo tiempo predicaba un discurso de liberación por ser un pueblo independiente lleno de libertades y bondades aunque eran difíciles de ver en el plano real. El Paraguay sí pudo pasar al plano real todo tipo de libertades, seguridad, bienestar y poder adquisitivo de sus habitantes sin pedir ni un solo peso a ningún estado extranjero.

Este periodo de bonanza que muchos calificaron como ‘el milagro sudamericano’ trasciende desde 1844 con el gobierno de Carlos Antonio López hasta 1865 ya con el mariscal Francisco Solano López en el poder (hijo del anterior); se construyó la primera línea de ferrocarril y la primera industria metalúrgica del continente que fabricaba los primeros navíos de acero sudamericanos. Además, disponía de una línea de telégrafo propia, gran cantidad de escuelas redujeron considerablemente el analfabetismo enseñando a leer el español y el guaraní, se trazaron caminos y el Paraguay se convirtió en un gran exportador mundial de yerba mate y tabaco gracias a que se mejoró la producción al ser estado paraguayo el propietario de las tierras de cultivo que arrendaba a precio razonable a los campesinos. Etc.”

Enquanto nada temos contra os nossos vizinhos da América espanhola, parece que de vez em quando um e outro deles nos têm alguma queixa ou quer reclamar o que é parte da nossa grandeza e formidável unidade. Uma repetição noutro continente daquela sanha com que Espanha sempre perseguiu e tentou humilhar Portugal.      

Neste caso, trata-se da mentira do “paraíso paraguaio”, destruído pela ganância da financista Inglaterra, cujo principal longa manus teria sido o Brasil. Pura baboseira, indigna de sair da pena de católicos – hispanos, hispanófilos ou de qualquer nacionalidade ou filiação. Foi regurgitada principalmente pelo marxista José Júlio Chiavenato no seu “clássico” “Genocídio americano: Guerra do Paraguai”. Vindo da pena de marxista, presume-se há problema. E assim o é: Chiavenato nunca consultou os arquivos brasileiros, os mais importantes da guerra; limitou-se a jornalecos platinos e anti-brasileiros (apud Euro B. Brandão, “A Guerra contra López”); nas palavras dele, fez uma “reinterpretação histórica”.                                                                                                  

Lixo marxista com que se pretende inverter a história e incutir vergonha nos brasileiros.

 

O artigo da comunidade hispanófila induz os eleitores a erro ao ladear-se de um mapa do Paraguai jesuítico. Quer-se dar a idéia de que esse é o território que pertence por direito ao Paraguai. Não o é. Aquilo tudo pertenceu primeiro a Espanha, cuja posse permitiu aos jesuítas. Depois, veio o desalojamento brutal e injusto dos mesmos jesuítas. Note-se que até aí não havia Paraguai, havia Espanha. Em seguida, a impetuosidade dos desbravadores e colonos luso-brasileiros chegará ao que hoje é Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Uruguai, gerando uma situação de fato só corrigida nos tratados de Madri, de Santo Ildefonso e de Badajoz (“uti possidetis ita possideatis”) e em acordos bilaterais com os vizinhos. A Providência permitiu que Portugal lucrasse da injusta ocupação e usurpação por Espanha após o “desaparecimento” de D. Sebastião: então o Tratado de Tordesilhas não fez mais sentido, e os luso-brasileiros deram vazão à sua natural mobilidade e impetuosidade, com que expandiram os seus domínios até às portas donde os espanhóis se encastelavam. Portanto, parem certos hispanófilos ressentidos de falarem e reclamarem o que lhes não é de direito.

Território conquistado com o suor dos nossos antepassados luso-brasileiros, e não com guerras injustas, como a de Lopes.

Reles é a acusação de que a guerra foi motivada pela cobiça da Inglaterra, que teria querido varrer o “ameaçador” “milagre econômico” paraguaio e transformar o país num mercado seu: o capital inglês pouco esteve no Paraguai tanto antes quanto após a guerra. Mais ainda deve desprezar-se o dito de que a Inglaterra temia o Paraguai transformar-se numa grande potência. Só comparado ao Brasil, naquela época, o comércio paraguaio era 42 vezes menor. A sua economia era até menor que a do Uruguai. Como então Chiavenato e companhia pretendem que o Paraguai estava no caminho para fazer frente à Inglaterra?

Charge mentirosa num livro escolar e marxista brasileiro (1997).     Habitual nas nossas escolas!

Vejamos com exemplos quão grande foi o “surto econômico” promovido por Carlos Lopes: abriu uma ferraria (a primeira do país) que, comparada à siderurgia inglesa, não era mais que tenda de blacksmith; abriu um estaleiro que, instalando-lhes canhões, transformava navios mercantes em navios de guerra – que maravilha de marinha, certamente a competir com a da Inglaterra! Tudo pequeno, improvisado e de segunda mão, e a siderurgia instalada com a ajuda de técnicos ingleses, pasmem! (pensávamos que os Lopes não dependessem em nada da Inglaterra…) Enquanto isso, o povo carente e vivendo sabe Deus como (100% afalbetizada, segundo o hispanófilo)! A Igreja perseguida e humilhada, como se vê nos dispositivos da “Reforma de alguns privilégios dos Reverendos Bispos” – exemplo de “hispanidade católica”!:

“Art. 1°. – Fica proibido todo e qualquer toque de sinos por motivo de entrar o bispo na igreja ou dela sair. Art. 2°. – É igualmente proibido ajoelhar-se alguém na rua, ou em qualquer outro lugar, à passagem do bispo. Art. 3°. – O bispo não poderá usar trono, nem manto, seja na igreja ou fora dela.”

O governo imperial brasileiro também estava infestado de maçonismo, liberalismo e regalismo, mas não precisamos de lorotas – não dizemos que foram santos, heróis ou quejando – para nos engradecermos ou para enlamear os outros.

Diz “Somos hijos de España” que, com o “milagre paraguaio”, “se construyó la primera línea de ferrocarril y la primera industria metalúrgica del continente que fabricaba los primeros navíos de acero sudamericanos”. Ora, meus caros, a primeira ferrovia paraguaia começou a ser construída em 1856, com tudo bem importado da Inglaterra pelo governo paraguaio, e com o inglês George Paddison na sua direção, é claro! Ora, no Brasil, em abril de 1854, já estava inaugurada a estrada de ferro Mauá, construída por ordem de um empresário brasileiro – havia empresários e negócios privados no Brasil, diferente do Paraguai, em que tudo pertencia aos Lopes. Tampouco a indústria metalúrgica instalada por Carlos Lopes foi a primeira: em 1810, tivemos a Real Fábrica de Ferro do São João do lpanema, e, em 1818, a Real Fábrica de Ferro de Morro do Pilar, ambas produzindo ferro e aço, sem falar das centenas de forjas por todo o país, existentes muito antes do Reino Unido. Os estaleiros brasileiros precedem em muito o século XIX, surgindo os primeiros no século XVI, com o nosso primeiro governador-geral, Tomé de Sousa, e acompanhando a tradicional indústria naval portuguesa. Nos século XIX, a coroa fundou o Arsenal da Marinha do Brasil, em 1808, e o Barão de Mauá fundou o Estaleiro Mauá, em 1846.

Estrada de ferro Mauá, fundada antes da ferrovia de Solano Lopes, a qual, conforme alegação de “Somos hijos de España”, foi a primeira do continente sul-americano.

Os enganos são tantos que, enfim, paramos por aqui!

A Inglaterra não empurrou ninguém à guerra. Como vimos, ela não se interessava pelo Paraguai. O Brasil não se interessava pelo Paraguai. Solano Lopes, homem soberbo, megalomaníaco, cavou a sua própria cova. Homem cruel, odioso, mandava matar quem se lhe opunha, covardemente. Muitos exilados paraguaios se juntaram ao exército argentino para fazer-lhe guerra – foi a Legião Paraguaia. Aterrorizou o seu próprio país e depois entregou-o à guerra. Com a derrota completa cada vez mais próxima, não deixou o governo, nem se exilou, mas pegou um cavalo e fugiu como um marica, deixando família e mulher para trás.

Genocídio paraguaio? Não pelas mãos do Brasil. Pelas mãos de Solano Lopes, sim. E mal se falam dos maltratos, torturas e assassinatos de brasileiros, a começar com o arresto criminoso do Marquês do Paraná. Nem se fala da cavalheiresca e honrada diplomacia brasileira, e da truculência paraguaia pelas mãos de Lopes.

Charge no jornal Vida Fluminense. Um monumento a Lopes: no topo de uma coluna de ossos paraguais. Foi a realidade.

Última mentira: “el país había cedido gran cantidad de territorio a la Argentina y al Brasil”. Convidamos “Somos hijos de España” a apontarem no mapa o “antes e depois” dos nossos ganhos territoriais com essa guerra. O Brasil, no seus limites, não avança mais que Portugal avançou. O Brasil nunca se expandiu ao estilo Lopes. Poderia Dom Pedro II ter aproveitado o conflito e incorporado parte do Paraguai ao Brasil, e não o fez. Diferente de Lopes, sempre teve um natural bom, equilibrado, sóbrio, justo, apesar do profundo liberalismo e dos males que causou à Igreja. Em verdade, nada fez o Brasil contra o Paraguai, senão ajudar o seu povo a livrar-se de Lopes – o povo guarani não o queria. Afinal, como vêem, não escrevemos contra o Paraguai, mas por ele, pelo Brasil, e pela verdade.

 

 

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